
Os empresários Joesley e Wesley Batista, controladores da J&F e protagonistas de alguns dos maiores escândalos empresariais e políticos da última década no Brasil, acertaram a compra de 100% da controladora da Avibras Aeroco, uma das principais fabricantes brasileiras de armamentos e equipamentos militares. A operação coloca os irmãos Batista diretamente em um setor considerado estratégico para a soberania e a defesa nacional.
A aquisição será realizada por meio da Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais dos empresários e que, segundo o grupo, não integra formalmente a J&F S.A. O valor da compra não foi divulgado. A operação foi comunicada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e ainda precisa passar pela análise do órgão.
A Avibras é responsável por algumas das principais tecnologias militares desenvolvidas no Brasil. Entre seus produtos está o Sistema de Artilharia Astros, capaz de lançar diferentes tipos de foguetes e mísseis, além do desenvolvimento do míssil de cruzeiro MTC-300. A empresa também possui conhecimento tecnológico nas áreas de propulsão, sistemas aeroespaciais e veículos militares.
A entrada dos Batista nesse mercado chama atenção justamente pela importância estratégica da companhia e pelo histórico empresarial e judicial dos novos controladores.
Joesley e Wesley Batista estiveram envolvidos em diversas investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF). Em 2017, executivos da J&F firmaram acordos de colaboração premiada que provocaram forte repercussão política no país.
No mesmo período, a J&F assinou acordo de leniência de R$ 10,3 bilhões com o Ministério Público Federal, envolvendo multas e investimentos sociais relacionados a irregularidades investigadas pelas autoridades.
Os irmãos também chegaram a responder a processo por suspeitas de uso de informação privilegiada e manipulação do mercado financeiro. As acusações estavam relacionadas a operações realizadas antes da divulgação do acordo de colaboração premiada firmado pelos empresários.
Esse histórico não representa qualquer evidência de irregularidade na atual aquisição da Avibras, mas torna a operação particularmente relevante por envolver uma companhia que desenvolve tecnologias sensíveis utilizadas pelas Forças Armadas brasileiras.
A compra significa, na prática, a entrada dos Batista nos setores aeroespacial e de defesa nacional.
A Avibras atravessou uma longa crise financeira e entrou em recuperação judicial em 2022. A situação provocou paralisações na produção, atrasos salariais e uma greve de trabalhadores que se estendeu por mais de três anos.
A retomada começou depois de uma captação privada de aproximadamente R$ 300 milhões, realizada para recuperar as operações. Joesley Batista já estava entre os investidores envolvidos nessa etapa, embora o valor individual de seu aporte não tenha sido divulgado.
A fábrica voltou a funcionar e, posteriormente, os irmãos avançaram para a aquisição do controle integral da companhia.
Segundo a Globe Investimentos, a compra pretende garantir recursos para a recuperação da Avibras, preservar sua tecnologia no Brasil e permitir que a fabricante volte a competir nos mercados nacional e internacional.
O futuro da Avibras vinha sendo acompanhado de perto pelo governo federal devido à importância estratégica da empresa.
Antes do acordo com os Batista, propostas envolvendo investidores estrangeiros chegaram a ser discutidas, enquanto integrantes do governo defendiam uma solução capaz de preservar o controle brasileiro sobre a fabricante.
Em junho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a fábrica da Avibras, em Jacareí, São Paulo, e voltou a defender o fortalecimento da indústria nacional de defesa.
A aquisição pelos irmãos Batista mantém formalmente o controle da companhia em mãos brasileiras, argumento destacado pelos próprios compradores.
Ao mesmo tempo, a entrada de empresários com histórico tão presente em investigações envolvendo poder econômico e político em uma fabricante de mísseis e sistemas militares inevitavelmente aumenta a necessidade de fiscalização e transparência sobre a operação.
A análise do Cade será uma das próximas etapas. Além da questão concorrencial, a negociação chama atenção pelo caráter estratégico dos ativos envolvidos: a Avibras não é apenas mais uma empresa em recuperação financeira, mas detentora de tecnologias militares desenvolvidas durante décadas no Brasil.
Caso a aquisição seja concluída, Joesley e Wesley Batista ampliarão ainda mais seu diversificado império empresarial e passarão a controlar também uma das empresas mais importantes da indústria bélica brasileira.
Fontes: CNN Brasil, Folha de S.Paulo, InvestNews, Ministério Público Federal e informações divulgadas pela Globe Investimentos.