
Nos últimos três meses, cerca de mil jumentos criados no Piauí foram enviados a frigoríficos na Bahia para abastecer o mercado chinês. Apenas em 2026, a Agência de Defesa Agropecuária do Piauí (Adapi) já registrou a emissão de Guias de Trânsito Animal (GTA) para a transferência de 3.172 equídeos com destino ao abate.
Diferentemente de outras cadeias pecuárias, não há fazendas no Estado dedicadas exclusivamente à criação comercial da espécie. Os animais são adquiridos em diversos municípios, mantidos temporariamente em propriedades cadastradas e despachados em lotes. As cidades piauienses com o maior volume de saídas neste ano foram Marcos Parente (1.570 animais), Floriano (1.405), São Raimundo Nonato (147) e Campo Maior (50).
A operação de abate ocorre sob supervisão do Serviço de Inspeção Federal (SIF). O Brasil possui hoje três frigoríficos autorizados para o abate de jumentos, todos concentrados na Bahia, mas apenas a planta industrial localizada em Amargosa detém a habilitação para exportar os produtos derivados ao país asiático.
Na China, a carne é comercializada para o consumo humano, mas o interesse primário e de maior valor agregado da indústria está na pele dos animais. O couro é a matéria-prima para a fabricação do "ejiao", uma gelatina à base de colágeno utilizada secularmente na medicina tradicional chinesa.
Embora a cadeia produtiva atue dentro da legalidade e cumpra os protocolos de defesa agropecuária, a intensa movimentação comercial tem gerado debates. Pesquisadores e entidades de proteção animal alertam para os riscos de declínio populacional e impactos na conservação do jumento nordestino. A regulamentação da atividade e a preservação da espécie são alvos de disputas atuais no Judiciário e de projetos em tramitação no Congresso Nacional.