
O Instituto Federal do Piauí (IFPI), por meio de seu campus no município de Paulistana, promoveu a segunda edição do Encontro dos Povos Originários, intitulado “Diálogos e Memórias no Chão Quilombola e Indígena”. O evento reuniu lideranças tradicionais, estudantes, docentes, pesquisadores e gestores públicos em uma ampla programação voltada para a valorização da cultura, da ancestralidade, da identidade e dos saberes tradicionais que moldam a história social da região sudeste do Estado. A iniciativa contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI) e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI), consolidando um espaço de debate e integração entre o meio acadêmico e as comunidades tradicionais locais.
A relevância de discutir as origens e a diversidade cultural do município foi destacada pelo secretário de Cultura de Paulistana, Nildo Alencar. Ele ressaltou que a cidade é cercada por comunidades quilombolas e possui territórios indígenas, tornando fundamental a promoção de momentos de troca de saberes e debates no ambiente institucional. Alencar parabenizou a equipe organizadora, composta por professores e estudantes do IFPI, e reafirmou o compromisso da gestão municipal em apoiar ativamente as lutas e as causas dessas populações tradicionais.
Representando o Território Indígena Baté Maré, o cacique Evan Nelson Araújo enfatizou que a realização do encontro no IFPI representa uma oportunidade crucial para fortalecer a formação dos estudantes indígenas. Segundo a liderança, a presença de professores indígenas na formação dos alunos garante que a educação esteja diretamente conectada à realidade e à história das comunidades, impedindo que a ancestralidade seja esquecida. Ele explicou que a relação com o território e com a natureza é a base do conhecimento tradicional, que precisa ser preservado e transmitido às novas gerações.
O professor doutor Ferreira Neto, coordenador da Licenciatura Intercultural Indígena do IFPI, explicou que o evento marcou um momento inédito para o campus ao unir, em uma mesma programação, comunidades indígenas e quilombolas. O projeto foi elaborado de forma coletiva, contando com a colaboração do professor Gilson, de integrantes do NEABI e de estudantes das licenciaturas em Química e Intercultural Indígena. A articulação também teve a participação da professora Leila, evidenciando o engajamento de diferentes setores da instituição na construção de uma proposta pedagógica inclusiva.
Um dos palestrantes convidados, o doutor João Paulo Peixoto Costa, apontou que iniciativas dessa natureza são essenciais para que a sociedade se aproxime de sua própria história e identidade. Para o pesquisador, é impossível compreender a formação da sociedade brasileira sem reconhecer suas matrizes africanas, quilombolas e indígenas. Ele defendeu a abertura das portas das instituições de ensino superior para os povos tradicionais como um passo fundamental para a construção de uma sociedade efetivamente democrática, onde diferentes saberes possam circular livremente.
A articulação com a rede pública de ensino também foi pautada durante as discussões. A coordenadora de Gestão e Inspeção da Secretaria Municipal de Educação, Janaína Neri, destacou as ações desenvolvidas no município para assegurar uma educação pautada na equidade e no respeito à diversidade. Entre as medidas adotadas pela administração local, ela mencionou a aquisição de material didático específico para as escolas quilombolas e indígenas, além da atuação de uma coordenação dedicada exclusivamente a acompanhar essas demandas pedagógicas.
A coordenadora de Alfabetização e Diversidade, Diana Valdeti, celebrou a presença das comunidades no campus e lembrou que Paulistana abriga uma das maiores comunidades indígenas do Piauí, a aldeia Baté Maré, além de seis comunidades quilombolas reconhecidas. Para ela, o movimento é indispensável para manter vivas as tradições, fortalecer a identidade local e combater o racismo estrutural no território. A participação ativa de estudantes de diversos cursos, como a graduanda em Química Maria Jarlene, reforçou o caráter integrador do encontro.
Por fim, o coordenador do NEABI em Paulistana, David Braga, propôs uma reflexão sobre a formação histórica do povo brasileiro, constituído pelas matrizes indígena, europeia e africana. Ele ressaltou que os povos originários e quilombolas enfrentaram séculos de adversidades, mas permanecem firmes na luta por direitos e sobrevivência. Braga definiu essas comunidades como vitoriosas por preservarem sua essência e continuarem ativas na busca por espaço e reconhecimento na sociedade contemporânea, consolidando o encontro como um marco de resistência e diálogo intercultural.