
Uma força-tarefa resgatou dois trabalhadores rurais submetidos a condições análogas à escravidão em duas propriedades no município de José de Freitas, no Interior do Estado. As operações, coordenadas pela Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT) com apoio do Ministério Público do Trabalho (MPT), Polícia Federal e Ministério Público Federal (MPF), ocorreram nos dias 21 e 22 de julho. Estes são os primeiros registros de resgate de caseiros nessa condição na história do Piauí.
O primeiro caso, flagrado em 21 de julho, envolve um trabalhador mantido há cerca de cinco anos sem remuneração. Contratado em situação de extrema vulnerabilidade, ele teve sua antiga casa demolida sob a promessa de que o empregador construiria uma nova, obra que nunca foi concluída e o manteve em total dependência.
A vítima arcava com o manejo de animais, ordenha e produção de silagem. Segundo a fiscalização, o caseiro sofria isolamento social, dormia na varanda sujeito a intempéries, usava um banheiro precário sem chuveiro e operava maquinário com risco elétrico sem Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Após a intervenção, os auditores calcularam mais de R$ 170 mil em direitos trabalhistas. O proprietário assinou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o MPT, comprometendo-se ao pagamento de R$ 100,1 mil ao resgatado, além da regularização do vínculo, melhorias nas instalações e previsão de multa de R$ 200 mil em caso de reincidência.
O segundo resgate, no dia 22 de julho, retirou um idoso de 63 anos, analfabeto, de outra chácara. Ele havia sido levado ao local sob a promessa de repouso após uma cirurgia oftalmológica, mas foi submetido a jornadas exaustivas na criação de ovinos e manutenção de cercas. O empregador prometia R$ 500 mensais, mas repassava cerca de R$ 30 após aplicar descontos abusivos por alimentação e alojamento.

A vítima dormia em um cômodo junto a defensivos agrícolas, consumia água com lodo e chegou a recolher e vender esterco para comprar remédios. Devido ao esforço físico extremo e à ausência de cuidados pós-operatórios, o trabalhador perdeu totalmente a visão de um dos olhos. O proprietário foi notificado, mas ignorou as convocações fiscais e abandonou o acompanhamento. O caso será levado à Justiça pelo MPT.
Ambos os trabalhadores receberam acolhimento emergencial, foram encaminhados ao Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e terão direito a seis parcelas do seguro-desemprego especial. Denúncias sobre trabalho análogo à escravidão podem ser feitas de forma anônima em todo o país por meio do Sistema Ipê.