Os resultados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), trouxeram um dado surpreendente sobre o Piauí: a população que se autodeclara indígena no estado mais que dobrou em 12 anos. O total passou de 2.944 pessoas em 2010 para 7.202 em 2022, um aumento de 144,6%. Paralelamente, o número de etnias, povos ou grupos indígenas registrados no território piauiense subiu de 47 para 81, um acréscimo de 72%.
O crescimento é expressivo, mas levanta questionamentos. Embora o IBGE atribua o aumento a uma maior autoafirmação e à extensão da pergunta de autodeclaração para fora das Terras Indígenas (o que torna a identificação mais inclusiva), alguns dados do levantamento suscitam uma análise mais cautelosa.
A pesquisa revela que uma parcela significativa dessa população recém-identificada não conseguiu especificar a que grupo étnico pertence. Quase metade dos indígenas piauienses (45,4%) não teve sua etnia determinada, seja por não declarar, por não saber informar, ou por a informação ter sido considerada mal definida pelo recenseador. Apenas 54,6% do total de autodeclarados souberam informar uma etnia específica.
Entre os grupos mais numerosos estão os Tabajara (1.365 pessoas), Akroá-Gamela (918) e Kariri (781). Outro ponto que chama a atenção é a alta taxa de não falantes de línguas indígenas no estado: mais de 96% dos indígenas piauienses com dois anos ou mais não utilizam um idioma ancestral em casa. Além disso, a maioria dos indígenas (cerca de 48%) vive em áreas urbanas, um reflexo do fenômeno de migração e da busca por reconhecimento nas cidades.
O cenário desenhado pelo Censo 2022 no Piauí é, portanto, de um salto populacional e étnico sem precedentes em uma única década. O desafio agora reside em entender se esse crescimento representa de fato a redescoberta e a visibilidade de comunidades ancestrais ou se o processo de autodeclaração, em um contexto de busca por políticas públicas específicas e maior representatividade, pode ter abarcado indivíduos sem laços comunitários formalmente estabelecidos. O aumento, de qualquer forma, exige atenção e debate sobre a real dimensão e as necessidades dessas comunidades no Estado.